06/12/17 Comportamento

Cinco lições que os chimpanzés podem nos dar sobre política

Yeroom era líder de uma comunidade e, depois de ficar no poder por muito tempo, tentaram derrubá-lo.

A liderança dele, cada vez mais autocrática, estimulou um jovem e ambicioso rival a reunir a seu redor um grupo de simpatizantes.

À medida que Yeroom perdia seguidores e a confiança em si mesmo, o jovem rival se sentia cada vez mais fortalecido politicamente. Ele então ofereceu ao velho líder um cargo na nova administração.

Yeroom aceitou. Mas, em segredo, formou uma aliança com outro jovem, Niki, com quem planejou derrubar o novo líder.

Niki assumiu o poder, mas quem verdadeiramente seguiu no comando da comunidade foi o hábil e experiente Yeroom.

Mas toda essa disputa política, com maquinações e estratégias de poder, ocorreu num zoológico. Seus protagonistas: chimpanzés.Chimpanze

A trajetória de ascensão e queda de Niki foi descrita no livro A Política dos Chimpanzés, de Frans de Waal, primatólogo holandês, professor da Universidade Emory e diretor do Centro Nacional de Investigação de Primatas em Atlanta, nos Estados Unidos.

O enredo da história demonstra que as manobras políticas desses animais conversam bastante com o mundo humano.

Com base nisso, há cinco lições importantes que os chimpanzés, nossos parentes mais próximos no mundo animal, podem ensinar sobre política:

1. Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos, mais perto ainda

Esses primatas extremamente inteligentes vivem em grupos sociais de cerca de 50 membros. Assim como os humanos, os grupos deles têm uma hierarquia própria, o que inclui líderes.

E, da mesma forma como os humanos, os chimpanzés têm um enorme desejo por poder.

“Os grupos são dominados por machos. Os machos dominam as fêmeas e entre esses machos há uma luta para que um se destaque como o macho principal”, explicou à BBC o professor Frans de Waal.

“Isso é o que se conhece como sede por poder. Lutam para ocupar uma posição mais alta e para obter certos benefícios, como alimentos e fêmeas. Em alguns casos, surgem machos que permanecem como ‘machos alfa’ por até 12 anos.”

É verdade que a disputa pela posição de macho alfa envolve certo grau de força física, mas os animais que alcançam o topo da hierarquia são, também, muito políticos.

“A força é medida pela quantidade de indivíduos que te apoiam e pela quantidade de amigos que tem dentro da política do grupo, porque um só indivíduo não pode controlar toda uma comunidade”, explicou à BBC a pesquisadora Alison Cronin, diretora do Monkey World, em Somerset, Inglaterra, o maior santuário de primatas fora da África.

2. Quando estabelecer alianças, escolha alguém mais fraco e não mais forte que você

Um chimpanzé que quer ascender ao posto mais alto precisa de amigos, de aliados e, sobretudo, de uma estratégia.

Como explica Frans de Waal, os primatas formam coalizões de conveniência, que mudam continuamente.

“Se temos um grupo com três machos e um deles é extremamente forte, os outros dois tenderão a se aliar contra o mais forte. Eles sabem que, caso se unam ao macho mais forte, acabarão convertidos em um acessório de poder.”

“Por outro lado, se um deles se une a um macho tão fraco quanto ele, então formará uma aliança que será essencial para a coalizão”, explica o especialista.

E é assim que se formam as coalizões de partidos políticos criados por humanos, conforme disse à BBC Simon Hix, professor de ciência política da London School of Economics and Political Science (LSE), do Reino Unido.

“Por exemplo, se temos três partidos em um parlamento, um grande e dois pequenos, a coalizão mais óbvia seria a do partido grande com um dos pequenos.”

“Mas previsões mostram que é mais vantajoso que dois partidos pequenos se unam, se juntos puderem garantir mais de 50% dos votos, porque, neste caso, poderão dividir o poder entre si.”

“Se um dos partidos pequenos formasse a coalizão com o partido grande, este dominaria o pequeno e teria muito poder em suas mãos”, completa o professor.

Os chimpanzés também adotam outras estratégias políticas muito similares as dos humanos.

“Quando um macho idoso deixa de ter condições de continuar como macho alfa, ele começa a procurar e a preparar um macho jovem para ser o futuro líder. E esse macho pode terminar se tornando o novo macho alfa”, diz Waal.

“Também vemos isso ocorrer com seres humanos, com todos esses políticos velhos que continuam tendo enorme influência sobre um partido.”

E Hix acrescenta: “Na política democrática, vemos que muitas vezes o líder de um partido nem sempre é a pessoa com mais poder dentro desse partido. (Uma pessoa) É líder de um partido durante pouco tempo, enquanto as figuras políticas poderosas se mantêm no partido durante 15 ou 20 anos”.

O professor explica que são esses políticos poderosos que, na prática, conduzem as legendas. “Não querem à frente do partido alguém que possa ser mais poderoso que eles”.

3. É bom que te temam, mas melhor que te estimem

Para os primatas, sejam chimpanzés ou humanos, a perspicácia política é que determina, no fim das contas, quem tem poder.

“Há muitos livros empresariais que dizem que, para ser um ‘macho alfa’, você não deve deixar que ninguém imponha a sua vontade. ‘Dê um golpe na cabeça deles para que saibam quem manda, se assegure que sabem quem é o chefe, etc., etc.'”, comenta Frans de Waal.

“Mas está demonstrado que os melhores machos alfa nas comunidades de chimpanzés não são necessariamente os agressivos e baderneiros, nem os machos maiores e mais fortes.”

Segundo Frans de Waal, o mais importante é ter “simpatizantes” e mantê-los contentes. “Para isso é preciso ser diplomático. Os verdadeiros chimpanzés apoiam as vítimas depois de uma briga, as abraçam e acalmam.”

“E essa também é a tarefa dos líderes nas sociedades humanas. Os verdadeiros líderes são os que vão aos locais onde ocorreram desastres, como terremotos, para oferecer apoio ao seu povo.”

4. É bom que te estimem, mas é melhor ainda se você for capaz de distribuir prêmios

Os líderes querem o apoio das massas. Assim como os políticos estão atrás de votos, os líderes chimpanzés querem ser apreciados e capazes de distribuir benefícios para sustentar esse apoio.

 “Outra coisa que fazem é coletar comida para compartilhar com seus simpatizantes. (Toshisada) Nishida, cientista japonês que estudou um chimpanzé que foi macho alfa por 12 anos, descobriu que ele juntava carne e selecionava simpatizantes para compartilhá-la com eles. Em resumo, estabeleceu todo um sistema de subornos pelo qual obtinha vantagens a seu favor”, cita Frans de Wall.

“Eles brincam com os filhotes das fêmeas. Em geral, não estão interessados nesses filhotes, mas beijam os bebês, assim como os políticos humanos.”

5. Ameaças externas podem reforçar seu apoio (se elas realmente existirem)

Assim como explica Michael Bang Peterson, professor de psicologia política evolutiva da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, “quando pensamos em política, muitas vezes acreditamos que se trata de algo complicado”.

“Mas a política na verdade trata de questões básicas sobre como nos relacionamos com os outros, quem são nossos amigos, quem são nossos inimigos, o que é bom ou ruim, quem merece ou não nossa ajuda”, diz.

Assim como os humanos, os chimpanzés se veem envoltos em conflitos violentos com grupos rivais.

“Os chimpanzés são intensamente territorialistas e defendem seu espaço organizando grupos de patrulha, com machos de olho em possíveis ameaças externas ou em indivíduos que possam tentar invadir seu território”, explica Alison Cronin, do Monkey World.

“E eles conduzem essas patrulhas de perímetro de noite e de manhã”, diz.

Quando se veem ameaçados por um agente externo, os grupos de primatas se unem e esquecem as dissidências internas.

Existe um conceito usado na ciência política que reflete essa conduta nos humanos, “o efeito da união ante a bandeira”, quando uma ameaça externa inesperada reforça o apoio a um governo. Um exemplo: a resposta aos ataques de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Fonte: BBC Brasil

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