05/04/18 Impostos

Lavagem Cerebral

Gustavo Castañon: A novelização da corrupção na TV e a incrível lavagem cerebral brasileira

Praticamente todo taxista ou motorista de Uber que eu pego hoje em dia, com os quais sempre puxo conversa política, assim como a maioria de meus amigos de infância de classe média, considera que o que levou o Brasil à lona é que:

1) Pagamos imposto demais;

2) Não recebemos nada em troca;

3) Porque os políticos roubam tudo.

O incrível com esse senso comum liberal que se estabeleceu para explicar a realidade brasileira é que ele é completamente falso.

1) A carga tributária brasileira é rigorosamente mediana, em cerca de 32 a 34%, é maior que a de países subdesenvolvidos, um pouco maior que a yankee e muito menor que a europeia, que varia entre 42 e 52%.

“Trabalhamos quatro meses por ano para pagar impostos” diz a classe média.

O europeu trabalha cinco ou seis. O problema é que praticamente só os pobres e a classe média bancam a arrecadação de impostos no Brasil.

Observem que a maioria dos empresários brasileiros não são ricos, são de classe média. O rico, empregado ou rentista, cria uma empresa, coloca tudo no nome dela, não paga praticamente IR e não paga imposto sobre lucros e dividendos. Como diz a Oxfam, o Brasil é o paraíso dos super-ricos.

2) O brasileiro é regra geral uma pessoa muito pobre, que produz pouco comparado ao europeu e quer ter a saúde pública da Dinamarca. Porque não tem, reclama que não tem retorno de seus impostos.

A novelização da corrupção na TV faz com que ele, muito justamente, queira a cabeça de todos os corruptos, e muito injustamente, coloque na conta deles todos os seus males.

O problema é que um dinamarquês produz em média três vezes mais riqueza que um brasileiro, paga metade do que produz em impostos e eles vão todos para os serviços públicos e desenvolvimento nacional.

Já o brasileiro produz 3 vezes menos riqueza, paga só um terço dela em impostos e ainda vê 51% do seu orçamento público (não 51% dos impostos, porque orçamento também tem de receita o que se pega emprestado no mercado) indo para a conta de juros e rolagem da dívida (o Brasil pagou em juros ano passado o equivalente a cerca de 22% de sua arrecadação de impostos).

Diante desse cenário o Brasil oferece a seu povo educação básica universal gratuita (péssima, mas oferece), atendimento de saúde universal gratuito (com muita coisa boa que mesmo usuários de plano de saúde vão à justiça para ter), previdência social universal, polícia militar, civil, defesa civil, exército, o judiciário mais caro do mundo, iluminação pública, universidade pública gratuita e de qualidade, e tantos mais serviços que me dá preguiça digitar.

Isso com o que sobra do um terço de nossa riqueza três vezes menor, depois de pagarmos os juros mais altos do mundo. O estado brasileiro, para o que recebe e tem que sustentar de nossos milionários, entrega o impossível.

3) A corrupção é a estória da carochinha conservadora e liberal desde antes de eu nascer.

A moral dessa estória é óbvia e simples, até um leitor do Globo consegue entender: as leis são boas, a sociedade funcionaria perfeitamente se não fossem os políticos ladrões.

Para começar, por definição, um agente do estado é corrompido por desviar o interesse público para o privado, dele ou de outrem.

Ou seja, quem fica com a maior parte da corrupção é o poder econômico privado que corrompe o poder político, como pudemos assistir durante toda a lava-jato.

Mas a corrupção, que segundo estimativas do Banco Mundial não chega a 1% de perda no nosso orçamento (eu estimo muito menos), representa no máximo, matematicamente, 1% de nossos problemas.

Nosso problema são os 22% dos nossos impostos pagos em juros e os dois terços da previdência sugados pelo judiciário e super-salários de somente 2% dos segurados.

Nosso problema não é a corrupção, nosso problema é que somos um país escravagista, décimo mais desigual do mundo onde a principal função do Estado é roubar dos pobres para dar aos ricos, financiar milionários agiotas e parasitas.

Será que é possível fazer frente a tão absurda e surreal lavagem cerebral?

Não sei, só sei que qualquer campanha política ou presidencial no Brasil que não tente fazer isso não é digna, não vale a merda do fundo partidário que come.

Gustavo Castañon é professor de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Fonte: Vio Mundo

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on Twitter0Print this page
Email this to someone

Tags:, ,