30/04/18 Mídia

Engrenagens

O liberalismo coloniza a rede

Fa­ce­book es­piona e vende dados

A crise da pri­meira rede so­cial do pla­neta é um ato de jus­tiça que a hu­ma­ni­dade me­rece. O opor­tu­nismo de­li­rante dos res­pon­sá­veis pelo Fa­ce­book, o re­vi­ta­li­zado pro­jeto po­lí­tico da di­reita ra­dical e a es­pan­tosa cum­pli­ci­dade dos usuá­rios con­fi­gu­raram um dos mais de­sas­trosos as­saltos e vi­o­la­ções na his­tória da hu­ma­ni­dade.

Em que pese os tec­no­ge­né­ticos, o Fa­ce­book e as ou­tras em­presas do setor rou­baram uma ideia ma­ra­vi­lhosa, a In­ternet, com o único pro­pó­sito de es­tender a do­mi­nação li­beral do mundo.

O Oci­dente cresceu junto com a co­lo­ni­zação e agora as redes mo­dernas rein­ven­taram uma nova forma de co­lo­ni­zação. Já não se trata de co­lo­nizar um ter­ri­tório, a rede mesmo é o ter­ri­tório através do qual o li­be­ra­lismo am­plia a nova co­lo­ni­zação. O Vale do Si­lício é um sis­tema di­ta­to­rial fe­chado e não um pa­raíso do qual emergem os con­ceitos de uma hu­ma­ni­dade re­no­vada.

Os al­go­ritmos do Fa­ce­book têm dois pro­pó­sitos: for­matar, cen­surar, ma­ni­pular, di­re­ci­onar, ex­pandir e ga­nhar di­nheiro. Pouco im­portam para o Sr. Mark Zuc­ker­berg nossas ale­grias, nossos gritos ou nossos se­gredos: o que o move é apenas a fome de ver suas ações su­birem e su­birem. Na rede, nossas vidas são mo­edas que se acu­mulam e não perfis de uma hu­ma­ni­dade que com­par­tilha suas pai­xões e re­la­ci­o­na­mentos.

A pas­si­vi­dade dos usuá­rios com as re­ve­la­ções con­tí­nuas sobre a vi­o­lação ma­ciça de pri­va­ci­dade e mo­ne­ti­zação dos seus dados pes­soais, a ine­fi­cácia dos sis­temas ju­rí­dicos de mas­to­dontes au­to­con­gra­tu­lados como a União Eu­ro­peia, a in­ca­pa­ci­dade ou pre­guiça para o de­safio de criar redes sau­dá­veis e al­ter­na­tivas, a fra­queza dos es­tados do sul e o atraso da es­querda quando se trata de re­fletir sobre novas tec­no­lo­gias e os de­sa­fios que elas in­tro­duzem na li­ber­dade hu­mana e a re­for­mu­lação do mo­delo so­cial, o fas­cínio com o brin­quedo tec­no­ló­gico e o pro­jeto da di­reita pla­ne­tária, tudo foi mis­tu­rado em uma dança mortal.

Na crise do Fa­ce­book, todos os in­gre­di­entes que de­mons­tram sua pu­si­la­ni­mi­dade e sua in­di­fe­rença para com aqueles que foram os ar­qui­tetos de sua ri­queza, isto é, os usuá­rios, são com­bi­nados. As re­ve­la­ções que o ex-agente da NSA, Edward Snowden, lançou em 2013 no jornal The Guar­dian já ti­nham pro­vado ad nau­seam a co­ni­vência de Go­ogle, Apple, Fa­ce­book, Yahoo! e a Mi­cro­soft com ser­viços de in­te­li­gência ou se­tores pri­vados que ga­nham di­nheiro com dados pes­soais ou pro­movem ide­o­lo­gias re­tró­gradas. Tudo ter­minou num grande si­lêncio que esse es­cân­dalo traz para fora das ca­ta­cumbas da in­di­fe­rença.

O caso é de uma se­ve­ri­dade des­tru­tiva: não é nada mais e nada menos que em­presas pri­vadas que usaram os dados de 50 mi­lhões de usuá­rios do Fa­ce­book com o ob­je­tivo de ma­ni­pular po­li­ti­ca­mente os ci­da­dãos. A di­reita mais an­tiga ga­nhou os pro­gres­sistas das tec­no­lo­gias e os po­etas das ide­o­lo­gias.

Nos Es­tados Unidos, a con­sul­toria Cam­bridge Analy­tica ob­teve e usou os dados como uma arma de in­fluência na cam­panha elei­toral de Do­nald Trump. Na Grã-Bre­tanha, a sub­si­diária da Cam­bridge Analy­tica, a Stra­tegic Com­mu­ni­ca­tion La­bo­ra­to­ries (SCL), es­pe­ci­a­li­zada em cre­den­ci­adas “es­tra­té­gias de in­fluência” des­ti­nadas a agên­cias go­ver­na­men­tais e se­tores mi­li­tares, pro­cedeu do mesmo modo.

Ela ba­seou-se nos dados para en­tregar o re­fe­rendo sobre a per­ma­nência da Grã-Bre­tanha na União Eu­ro­peia do lado do “Leave”, isto é, o já co­nhe­cido Brexit. Se você olhar bem as coisas, o Fa­ce­book e o Big Data pre­sidem a re­con­fi­gu­ração da po­lí­tica mun­dial, mar­cada nos úl­timos dois anos pelo Brexit e pela eleição de Trump. A ex­trema-di­reita na­vega à von­tade. O Cam­bridge Analy­tica usa a massa de Big Data para criar um bolo de men­sa­gens e for­ma­tação po­de­rosa.

Em 2014, o pes­qui­sador Alek­sandr Kogan (Cam­bridge), teve a ideia de criar um teste de per­so­na­li­dade que foi res­pon­dido por quase 300 mil usuá­rios do Fa­ce­book. Esses dados e todos os links que os acom­pa­nham foram en­vi­ados por Kogan para a Cam­bridge Analy­tica. Esta em­presa de­sem­pe­nhou um papel igual­mente pre­pon­de­rante nas elei­ções no Quênia e de­pois nas pri­má­rias do Par­tido Re­pu­bli­cano nos Es­tados Unidos em favor de Ted Cruz.

E se ainda existem ino­centes que per­sistem em fe­char os olhos para a es­ma­ga­dora vi­tória da di­reita do mundo com a ponte de novas tec­no­lo­gias, bas­taria acres­centar que o prin­cipal aci­o­nista da Cam­bridge Analy­tica é nin­guém menos que Ro­bert Mercer, um bi­li­o­nário muito dis­creto que também é aci­o­nista do portal de ex­trema-di­reita Breit­bart News.

E isso não é tudo: no con­selho de ad­mi­nis­tração da Cam­bridge Analy­tica apa­rece outro di­rei­tista ilustre: Steve Bannon, o novo ídolo dos po­pu­listas glo­ba­li­zados e ex-di­retor da cam­panha elei­toral Trump.

Os após­tolos do ra­cismo, da xe­no­fobia, da iden­ti­dade na­ci­onal como uma de­cla­ração de guerra, da so­be­rania ex­clu­dente, da cen­sura, do fe­cha­mento de fron­teiras e da guerra co­mer­cial as­so­maram nas in­fi­nitas abas da tec­no­logia para nos ofe­recer o pe­sa­delo Brexit, Trump, vi­o­lência contra o outro e as vi­sões mais atra­sadas e tó­xicas que a hu­ma­ni­dade foi capaz de pro­jetar desde o início do sé­culo 20.

A di­reita teve uma bri­lhante e apo­ca­lí­tica vi­tória graças, não apenas ao Fa­ce­book e seus ali­ados, mas também a nossa pre­guiça quando se trata de in­tro­duzir na nossa aná­lise o uso de tec­no­lo­gias de po­lí­ticas al­ter­na­tivas. Agimos como cri­anças com um pre­sente de Natal en­quanto o mons­truoso Papai Noel con­quistou e ma­ni­pulou nossa ino­cência.

O Fa­ce­book deu provas su­fi­ci­entes de sua imo­bi­li­dade, ne­gli­gência ou cum­pli­ci­dade. Os al­go­ritmos do Fa­ce­book têm uma re­per­cussão per­versa e le­vantam a re­le­vância da re­lação entre de­mo­cracia e rede so­cial. As redes nos vendem e de­li­neiam um tipo de re­la­ci­o­na­mento que es­ti­mula com­pro­missos cujos re­sul­tados são então reu­ti­li­zados por ou­tros se­tores na cru­zada co­lo­ni­za­dora sempre re­a­ti­vada da cons­ci­ência hu­mana.

Rob Sherman, vice-chefe do de­par­ta­mento de Pri­va­ci­dade do Fa­ce­book, disse que a em­presa está “for­te­mente com­pro­me­tida com a pro­teção dos dados dos usuá­rios”. Uma piada re­tó­rica de mau gosto. Prova de que o Fa­ce­book não era ino­cente: três anos atrás, ele “per­cebeu” o roubo dos dados da Cam­bridge Analy­tica… Mas não fe­chou a conta até 17 de março.

Não há a menor dú­vida de que na Ar­gen­tina o Fa­ce­book serviu e serve aos mesmos pro­pó­sitos do li­be­ra­lismo do­mi­nante. O pri­meiro ato de re­sis­tência moral e po­lí­tica de um pro­gres­sista digno do sé­culo 21 seria fe­char ime­di­a­ta­mente sua conta no Fa­ce­book. Isso, no en­tanto, pa­rece ser mais árduo do que forçar os ge­rentes da rede so­cial a serem mais res­pon­sá­veis.

Es­tamos di­ante de uma ali­ança li­beral ul­tra­con­ser­va­dora, acor­dada entre se­tores po­lí­ticos e em­presas de tec­no­logia. É uma guerra ide­o­ló­gica sem bombas e de­vemos deixar de ser os ino­centes cor­deiros que con­tri­buem para as vi­tó­rias de seus exe­cu­tores.

Edu­ardo Febbro é jor­na­lista.

Fonte: Pagina 12

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